Já não sabia o que era sofrer assim há bem, bem uns vinte anos. Foi num misto de dor, mágoa, revolta que vi o meu amigo destes últimos dez anos adormecer no meu colo. O meu Sebastião teve de ser posto a dormir. Não só o sofrimento da perda me fez chorar lágrimas sinceras, doridas, sofridas, mas também o sofrimento nos olhos do meu avô que derramou um dilúvio de lágrimas como eu nunca havia visto. Nunca tinha visto o meu avô chorar. Para quem o conhece é difícil de imaginar aquele portento de homem a chorar. Encerrou o seu choro com uma frase que jamais me sairá da memória: "Eu só tinha um amigo, e esse meu amigo morreu hoje". Acho que isto diz tudo. Por seu lado, a minha avó também ela estava desfeita em dor, na dor da perda daquele que foi o seu confidente quando mais ninguém a ouvia, daquele que a ouviu desfiar um constante rosário de queixas e queixumes. Foram dez anos de aprendizagem com este ser que hoje fechou os olhos. Aprendi que cada vez mais prefiro os cães aos homens. Nunca deixou de estar ao pé de mim por ter levado uma sapatada ou por ter sido repreendido, nunca deixou de me fazer festa de cada vez que me via. E mesmo hoje, não podendo mexer-se da cintura para baixo, levantava o tronco e os olhos diziam-me, pediam-me que o ajudasse a levantar-se para vir ter comigo e brincar com a sua "bolinha". Muitos episódios vão ser guardados na minha memória. Agora, meu querido e fiel amigo, quero que saibas que foste e serás sempre aquele que eu considero de O meu cão. Não és um cão qualquer. Tu és e serás O meu cão. Onde quer que estejas sei que estás descansado. Um beijo muito grande e um abracinho muito apertado. Saudades mais que muitas tuas, meu Sebastião! Até sempre, meu amigo...
